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Uma Noite em Beijing
Audrey de Albuquerque Pirelli Novi

      O sentimento mais satisfatório que um estudante de uma segunda língua pode ter é chegar no país onde ela é falada e perceber que aprendeu alguma coisa. No caso do chinês, este sentimento satisfatório chega a ser emocionante. Todos sabem do grau de dificuldade do idioma no que tange não só a escrita em ideogramas, mas principalmente as barreiras de pronúncia e, o que é pior, a identificação dos fonemas em nossos ouvidos.

      Os meus primeiros dias na China foram uma tristeza no que se diz respeito à compreensão mútua, ou seja, entender os chineses e fazer os chineses me entenderem. O cérebro leva alguns dias para se adaptar a um novo idioma, ainda mais em Beijing, onde as pessoas aparentemente competem entre si para ver quem fala mais rápido e com a boca mais fechada!

      Foi só na terceira noite que percebi que tinha aprendido alguma coisa, ou melhor, muita coisa. Meus colegas de viagem não quiseram me acompanhar para a famosa rua dos bares de Beijing, e tive que ir só. Na ida, tudo bem. A guia havia me explicado como chegar de metrô e me deu um mapa em ideogramas, os quais honestamente eu desconhecia em sua grande maioria. Foi uma noite bastante divertida; fiz “amizade” com o garçom, comi pizza, tomei pijiu (cerveja), tirei fotos e fiquei a maior parte do tempo observando os jovens chineses, seu comportamento na vida noturna. Na volta, depois de algumas pijiu, já não me lembrava de que lado da rua eu tinha vindo, muito menos onde ficava a estação de metrô e, ainda muito menos, em qual estação eu tinha que descer para chegar ao hotel. Abri meu mapa do tesouro e vi tantos rabiscos que já não sabia mais o que a guia tinha escrito pra eu fazer e o que ela tinha escrito pra eu NÃO fazer... Por sorte, vi alguns guardas civis na esquina. Chegou o momento de usar meu chinês para sobrevivência. Consegui pedir licença e perguntar onde ficava a estação de metrô. Eles explicaram com a ajuda de mímicas e apontando o cassetete para a direita, para a esquerda, para trás, pra frente, pro lado, pra cima, pra baixo, nossa! Pedi para explicarem uma vez mais, e fui repetindo. Finalmente ficou claro onde estava a estação de metrô. Agora eu tinha que saber em qual estação eu deveria descer. Falei o nome do hotel, e eles ficaram na mesma. O nome em inglês não ajudou. Mostrei o cartão do hotel, onde havia um mapa de localização. O tal mapinha continha nada mais que o quarteirão do hotel e a avenida principal mais próxima. No entanto, os guardinhas (no diminutivo por serem pequenos) pareciam não conhecer aquele lado da cidade. Conversavam entre eles... Quanta dúvida! Finalmente falaram em qual estação eu deveria descer, mas não tinham certeza. Sugeriram que eu perguntasse na estação. Depois de uns vinte minutos de conversa entre eles, tudo o que me falaram foi “dui bu qi” (desculpe-nos). Fiquei com certa pena deles, estavam tão empenhados em me ajudar, mas acho que eram eles que estavam precisando de ajuda! Agradeci e, ao me despedir, pediram para tirar foto. Isso já não era novidade pra mim, uma ocidental “loira” de cabelos cacheados. Tirei todas as fotos que queriam, inclusive com o cassetete fosforescente. Trocamos e-mail, e um deles até hoje me escreve. E depois dizem que os chineses são frios... De frio lá, só o tempo mesmo.

      Caminhei até a estação, comprei o bilhete e, na catraca, perguntei ao guarda local em qual estação deveria descer, mostrando o mapinha medíocre do cartão. Ele falou uma, duas, três vezes, até eu conseguir repetir o nome da estação. Fui caminhando até o trem, repetindo, repetindo em voz alta o nome da estação. Assim que entrei no trem, reconheci o nome da estação no trajeto pintado (quem inventou o pinyin é um gênio) e fiquei mais tranquila, bem mais tranquila. Em aproximadamente trinta minutos cheguei ao meu destino. Saí da estação e... E agora? Pra que lado está o hotel? Já eram quase quatro horas da manhã. Eu estava em uma avenida iluminada, mas vazia. Como a sorte não bate na nossa porta três vezes em uma mesma noite, achei melhor entrar no primeiro taxi que vi, e mostrei o mapa medíocre outra vez. Em poucos minutos, já estava chegando ao hotel. A sensação foi de alívio por estar segura, e de alegria por ter me dado conta de que realmente estava aprendendo a língua mais fascinante das cinco que hoje falo. Hen hao a!


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